terça-feira, 30 de outubro de 2012

Guantánamo, por Franz Kafka


Guantánamo é uma cidade com cerca de 209 mil habitantes, situada no sudeste de Cuba, sendo capital da província de mesmo nome. A cidade até possui a sua própria “Garota de Ipanema”, já que a canção Guantanamera quer dizer bela mulher de Guantánamo e foi usada como mensagem de paz e liberdade.
Chega a ser inacreditável saber que o Campo de Detenção de Guantánamo sobreviva desde 1898, quando foi estabelecido por militares da marinha americana, durante a Guerra Hispano-Americana. A maior parte dos detentos que estão na prisão hoje sequer foi julgada, mais ou menos como o que acontece no livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka. O conto, de 1914, mostra uma história parecida com o que já vimos nos noticiários do mundo inteiro em relação à prisão americana em território cubano, nos anos 2000.
A “guantanamera” carcerária, alugada aos Estados Unidos em 1903 – pelo custo de cinco mil dólares anuais, pagos até hoje, num acordo sem prazo determinado, estabelecido pelo então presidente Theodore Roosevelt – segue uma linha explicada por Kafka no livro, com a demonstração do poderio da máquina, sem se importar se é o correto ou não. Mais ou menos como o que aconteceu com a humanidade nos últimos séculos. O senso de respeito para com o ser humano (se é que ainda existe) é totalmente ignorado tanto pelos personagens do conto, como pelos governantes americanos.
Outro aspecto importante e curioso é que, no livro ou “realidade”, todos os presentes observam uma cena repugnante e sem a mínima coerência com nada, e continuam de braços cruzados, apenas pensando em como isso é errado ou como poderia ser aplicado em instituições próximas, ou apenas no dia a dia. E assim como no conto, sabemos que isso sempre está à espreita, esperando para eclodir em qualquer parte do globo. É uma pena que isso não morra nunca.
E tem mais um ponto a ser levantado: até onde podemos observar impassíveis os atos grotescos de outras instituições (não importando se são países, colônias penais ou de férias) sem interferir? Não por motivos políticos ou econômicos, mas pelo simples e vital senso? Talvez foi isso que Kafka quis nos mostrar em seu conto, já que descreve com maestria a máquina – uma metáfora do Estado? - e a fascinação que ela pode exercer nas mentes mais fracas. Acho que Kafka concordaria que não dá mais para ficar de braços cruzados esperando que alguém faça algo a respeito.
Por mais que o texto de Kafka tenha 90 anos, ou a prisão seja centenária, os dois apenas seguiram – no caso do escritor alemão, é uma história “fictícia” - os caminhos que a humanidade traçou ao longo dos anos. A capacidade da barbárie, no comportamento humano, nos leva a ter diversos pontos de vista no que se diz respeito a leis, estatutos e comportamentos. Ter liberdade não significa poder fazer o que bem entender. A máquina do Estado não pode ser capaz disso. Talvez Kafka não tivesse conhecimento de Guantánamo, mas a descreveu muito bem, apenas obervando o comportamento humano.

*resenha do Livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Meio Saramago


E nesse sonho, procuro escrever mais um parágrafo que dê conta desse vazio. Acordo com os pensamentos emaranhados. Pé esquerdo pra fora da cama. Um maldito contato matinal com o chão frio. Quase tão frio como a minha alma, neste dia imundo, de sentimentos e sensações tão primitivos, tão primevos. Carrego um mundo em minhas costas. Arrasto meus pés por caminhos que já conheço e que não levam a lugar nenhum. Vivo sonhando com algo que nunca sei o que é. Os habituais novos rostos estranhos de sempre, que nunca param de divagar sobre os próprios rumos, sem saber ao certo o por que disso. Esbarro sempre em uma mulher do médico, talvez uma rapariga de óculos escuros, quem sabe um Pero de Alcaçova Carneiro, ávidos por uma manifestação de suas personalidades, a fim de torná-las públicas, apenas para se fazer notar, principalmente para outros que mal sabem que estes existem. Conjectura inútil, se isso for realmente uma. Já são oito da manhã e o barulho infernal do despertador. Mas tudo isso não é nada demais. É que hoje eu acordei meio Saramago, meio sal amargo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Bebendo demais

“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho-me ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até o rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, conste-lo as escondidas e tenho o meu infinito…” *

Cansei do invólucro. E ando bebendo demais. Mudei o foco. Saio à cata de outros lugares que acrescentem de verdade. E sempre acho que falta algo que nunca sei o que é. Sinto-me sujo de coisas que não fiz, mas que acho que deveria fazer. Ando bebendo demais. Vivo num constante e inútil processo de catarse. O tempo passa e eu ainda por aqui. O tempo passou e talvez eu nunca estive aqui. Estar no lugar errado na hora errada. Chega. É necessária a mudança de recipiente.

“Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.” *

*trechos do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.