quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Sobre como lidar com as coisas


É meio complicado ter que saber lidar com as coisas da vida. Por exemplo, agora, no relógio marca 00:57, e estou escrevendo, ao som de Husker Du. O grande – e falecido – Grant Hart canta “Don’t Want to Know If You Are Lonely”, em um clipe de imagens antigas e um som que remete a uma outra época, alguma coisa que eu poderia ter vivido, mas enfim, não era nascido.
Na real, eu nem lembro como comecei a escutar Husker Du, deve ter sido no meio daquela fase mais jovem e apressada que temos, em que queremos ter tudo, fazer tudo, conhecer tudo, escutar tudo. Músicas que com toda certeza não foram escritas pra mim, mas que fazem parte da trilha sonora da minha vida, sei lá o motivo. A gente acaba se identificando com as coisas que aparecem na nossa frente. Às vezes não.
Mas o mais engraçado é saber que eu jamais poderei ir a algum show do Husker Du. A banda acabou em 1987, quando eu tinha apenas dois anos – e claro, sequer imaginava que eles existiam. Faz quase um ano que Grant Hart faleceu. E eu nunca vou poder cantar a plenos pulmões don’t wanna to know if you are lonely em um show do Husker Du. Tenho que saber lidar com isso. É tipo uma sensação de vazio, de que tá faltando algo. A gente tenta substituir por algo, mas sempre vai ter essa parte faltando. É chato pra cacete ter que lidar com isso sempre na cabeça.
Aliás, não só tenho que lidar com isso, de não poder ir a um show do Husker Du, mas também tenho que lidar com o fato de não poder ir também a um show do Ramones. E com o fato de que tenho que saber lidar com situações e demônios que vivem atrelados a alguns cantos escuros da minha mente. Acho que todo mundo tem isso.
E então, parece que a gente fica fazendo parte de um jogo, em que se manter o mais forte possível (ou aparentar ser esse ser mais forte possível) se faz necessário para lidar com as coisas que nunca teremos, ou com as outras que sempre arrumam um jeito de incomodar. Talvez a vida seja um jogo de quem lida melhor com tudo. Ou de quem tenta melhor. Sei lá.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Poema para a Senhorita Lua

Senhorita Lua sorria pela metade hoje. 
Não sei se estava meio triste ou meio alegre. 
Talvez porque só três estrelas a acompanhavam. 
Talvez porque ninguém olhava para ela. 
Mas quase ninguém olha pra ninguém nesse mundo. 
Eu entendo a Senhorita Lua. 
Sorrir pela metade é o sorriso de quem está meio triste.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Valeu, Paiva


BIIIIIIIINNN. Acabo de ler “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva. Tá, meio fora de moda – às vezes tenho vergonha de falar que li apenas agora, mas posso conviver com isso – mas fiquei muito impressionado com o relato do Paiva, não só do acidente, mas da vida como um todo.
Repensar até o andar (pra ele, literalmente) deve ser tarefa rotineira pra todo mundo, ao que me parece. Pensar no por que do mergulho estilo Tio Patinhas, o motivo disso e daquilo, sei lá, deve ser normal do ser humano. Nesse quesito, me sinto um tanto quanto o Paiva. Claro que guardada as devidas proporções, já que me consigo me locomover normalmente. Mas as coisas do coração, as dúvidas, as esperanças (e a falta delas, em alguns casos), porra, como me identifiquei. Tai uma coisa que essa experiência me ensinou: a rever com mais frequência os rumos da vida – ou qualquer coisa desse tipo.
É sempre tempo de rever e reavivar as coisas que estão aqui com a gente, desde que sejam boas, claro. Valorizar cada momento, cada segundo, cada beijo, cada risada, cada abraço. Ser e viver em sua plenitude, sem se importar se vão te achar um idiota ou coisa do tipo (será que deu pra sacar ou fui muito enrolado?).
É sempre tempo de rever as coisas. Sem precisar pular no estilo Tio Patinhas. Valeu, Paiva. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Guantánamo, por Franz Kafka


Guantánamo é uma cidade com cerca de 209 mil habitantes, situada no sudeste de Cuba, sendo capital da província de mesmo nome. A cidade até possui a sua própria “Garota de Ipanema”, já que a canção Guantanamera quer dizer bela mulher de Guantánamo e foi usada como mensagem de paz e liberdade.
Chega a ser inacreditável saber que o Campo de Detenção de Guantánamo sobreviva desde 1898, quando foi estabelecido por militares da marinha americana, durante a Guerra Hispano-Americana. A maior parte dos detentos que estão na prisão hoje sequer foi julgada, mais ou menos como o que acontece no livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka. O conto, de 1914, mostra uma história parecida com o que já vimos nos noticiários do mundo inteiro em relação à prisão americana em território cubano, nos anos 2000.
A “guantanamera” carcerária, alugada aos Estados Unidos em 1903 – pelo custo de cinco mil dólares anuais, pagos até hoje, num acordo sem prazo determinado, estabelecido pelo então presidente Theodore Roosevelt – segue uma linha explicada por Kafka no livro, com a demonstração do poderio da máquina, sem se importar se é o correto ou não. Mais ou menos como o que aconteceu com a humanidade nos últimos séculos. O senso de respeito para com o ser humano (se é que ainda existe) é totalmente ignorado tanto pelos personagens do conto, como pelos governantes americanos.
Outro aspecto importante e curioso é que, no livro ou “realidade”, todos os presentes observam uma cena repugnante e sem a mínima coerência com nada, e continuam de braços cruzados, apenas pensando em como isso é errado ou como poderia ser aplicado em instituições próximas, ou apenas no dia a dia. E assim como no conto, sabemos que isso sempre está à espreita, esperando para eclodir em qualquer parte do globo. É uma pena que isso não morra nunca.
E tem mais um ponto a ser levantado: até onde podemos observar impassíveis os atos grotescos de outras instituições (não importando se são países, colônias penais ou de férias) sem interferir? Não por motivos políticos ou econômicos, mas pelo simples e vital senso? Talvez foi isso que Kafka quis nos mostrar em seu conto, já que descreve com maestria a máquina – uma metáfora do Estado? - e a fascinação que ela pode exercer nas mentes mais fracas. Acho que Kafka concordaria que não dá mais para ficar de braços cruzados esperando que alguém faça algo a respeito.
Por mais que o texto de Kafka tenha 90 anos, ou a prisão seja centenária, os dois apenas seguiram – no caso do escritor alemão, é uma história “fictícia” - os caminhos que a humanidade traçou ao longo dos anos. A capacidade da barbárie, no comportamento humano, nos leva a ter diversos pontos de vista no que se diz respeito a leis, estatutos e comportamentos. Ter liberdade não significa poder fazer o que bem entender. A máquina do Estado não pode ser capaz disso. Talvez Kafka não tivesse conhecimento de Guantánamo, mas a descreveu muito bem, apenas obervando o comportamento humano.

*resenha do Livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Meio Saramago


E nesse sonho, procuro escrever mais um parágrafo que dê conta desse vazio. Acordo com os pensamentos emaranhados. Pé esquerdo pra fora da cama. Um maldito contato matinal com o chão frio. Quase tão frio como a minha alma, neste dia imundo, de sentimentos e sensações tão primitivos, tão primevos. Carrego um mundo em minhas costas. Arrasto meus pés por caminhos que já conheço e que não levam a lugar nenhum. Vivo sonhando com algo que nunca sei o que é. Os habituais novos rostos estranhos de sempre, que nunca param de divagar sobre os próprios rumos, sem saber ao certo o por que disso. Esbarro sempre em uma mulher do médico, talvez uma rapariga de óculos escuros, quem sabe um Pero de Alcaçova Carneiro, ávidos por uma manifestação de suas personalidades, a fim de torná-las públicas, apenas para se fazer notar, principalmente para outros que mal sabem que estes existem. Conjectura inútil, se isso for realmente uma. Já são oito da manhã e o barulho infernal do despertador. Mas tudo isso não é nada demais. É que hoje eu acordei meio Saramago, meio sal amargo.

terça-feira, 6 de março de 2012

Bebendo demais

“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho-me ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até o rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, conste-lo as escondidas e tenho o meu infinito…” *

Cansei do invólucro. E ando bebendo demais. Mudei o foco. Saio à cata de outros lugares que acrescentem de verdade. E sempre acho que falta algo que nunca sei o que é. Sinto-me sujo de coisas que não fiz, mas que acho que deveria fazer. Ando bebendo demais. Vivo num constante e inútil processo de catarse. O tempo passa e eu ainda por aqui. O tempo passou e talvez eu nunca estive aqui. Estar no lugar errado na hora errada. Chega. É necessária a mudança de recipiente.

“Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.” *

*trechos do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Juro que um dia eu devolvo

De uns tempos pra cá, venho pensando incessantemente nas coisas que passaram na minha vida que não eram exatamente minhas. Tá, confuso, sei disso, mas quero falar sobre o que tomei emprestado sem saber. Mais ou menos como o que eu li na internet um dia desses: ”Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo!”
E tenho certeza que esse pequeno texto (que eu desconheço o autor, mas isso pouco importa) pode ser aplicado em praticamente tudo, ao que me parece. Não em toda a acepção da palavra, mas apenas pra ilustrar como muito do que amamos – ou assim pensamos – é inevitavelmente passageiro. Cada pessoa que conheci, cada situação que passei, cada lugar que visitei, tudo foi uma forma de empréstimo, involuntário, mas um empréstimo.
No meu caso, nem sempre é fácil lidar com isso. Por mais que eu queira provar (não sei pra quem, talvez eu mesmo) que é tranquilo lidar com essas situações, não é simples digerir tudo isso que é jogado na minha fuça. Nada de escrever um tratado de como deveríamos nos sentir quando perdemos algo ou alguém, é apenas falar de como deveríamos aproveitar cada momento que é concedido. Como uma tarde na mesa do bar preferido, com a melhor cerveja, a melhor companhia, a melhor tarde, o melhor bate papo. Tudo emprestado, tudo já se foi. Ficou apenas a parte boa. A parte que eu desejei que ficasse.