É
meio complicado ter que saber lidar com as coisas da vida. Por exemplo, agora,
no relógio marca 00:57, e estou escrevendo, ao som de Husker Du. O grande – e
falecido – Grant Hart canta “Don’t Want to Know If You Are Lonely”, em um clipe
de imagens antigas e um som que remete a uma outra época, alguma coisa que eu
poderia ter vivido, mas enfim, não era nascido.
Na
real, eu nem lembro como comecei a escutar Husker Du, deve ter sido no meio
daquela fase mais jovem e apressada que temos, em que queremos ter tudo, fazer
tudo, conhecer tudo, escutar tudo. Músicas que com toda certeza não foram
escritas pra mim, mas que fazem parte da trilha sonora da minha vida, sei lá o
motivo. A gente acaba se identificando com as coisas que aparecem na nossa
frente. Às vezes não.
Mas
o mais engraçado é saber que eu jamais poderei ir a algum show do Husker Du. A
banda acabou em 1987, quando eu tinha apenas dois anos – e claro, sequer
imaginava que eles existiam. Faz quase um ano que Grant Hart faleceu. E eu
nunca vou poder cantar a plenos pulmões don’t wanna to know if you are lonely
em um show do Husker Du. Tenho que saber lidar com isso. É tipo uma sensação de
vazio, de que tá faltando algo. A gente tenta substituir por algo, mas sempre
vai ter essa parte faltando. É chato pra cacete ter que lidar com isso sempre
na cabeça.
Aliás,
não só tenho que lidar com isso, de não poder ir a um show do Husker Du, mas
também tenho que lidar com o fato de não poder ir também a um show do Ramones.
E com o fato de que tenho que saber lidar com situações e demônios que vivem
atrelados a alguns cantos escuros da minha mente. Acho que todo mundo tem isso.
E
então, parece que a gente fica fazendo parte de um jogo, em que se manter o
mais forte possível (ou aparentar ser esse ser mais forte possível) se faz
necessário para lidar com as coisas que nunca teremos, ou com as outras que
sempre arrumam um jeito de incomodar. Talvez a vida seja um jogo de quem lida
melhor com tudo. Ou de quem tenta melhor. Sei lá.