E nesse sonho, procuro escrever mais um parágrafo que
dê conta desse vazio. Acordo com os pensamentos emaranhados. Pé esquerdo pra
fora da cama. Um maldito contato matinal com o chão frio. Quase tão frio como a
minha alma, neste dia imundo, de sentimentos e sensações tão primitivos, tão
primevos. Carrego um mundo em minhas costas. Arrasto meus pés por caminhos que
já conheço e que não levam a lugar nenhum. Vivo sonhando com algo que nunca sei
o que é. Os habituais novos rostos estranhos de sempre, que nunca param de
divagar sobre os próprios rumos, sem saber ao certo o por que disso. Esbarro
sempre em uma mulher do médico, talvez uma rapariga de óculos escuros, quem
sabe um Pero de Alcaçova Carneiro, ávidos por uma manifestação de suas personalidades,
a fim de torná-las públicas, apenas para se fazer notar, principalmente para
outros que mal sabem que estes existem. Conjectura inútil, se isso for
realmente uma. Já são oito da manhã e o barulho infernal do despertador. Mas
tudo isso não é nada demais. É que hoje eu acordei meio Saramago, meio sal
amargo.