Guantánamo é uma cidade com
cerca de 209 mil habitantes, situada no sudeste de Cuba, sendo capital da
província de mesmo nome. A cidade até possui a sua própria “Garota de Ipanema”,
já que a canção Guantanamera quer
dizer bela mulher de Guantánamo e foi usada como mensagem de paz e liberdade.
Chega a ser inacreditável
saber que o Campo de Detenção de Guantánamo sobreviva desde 1898, quando foi
estabelecido por militares da marinha americana, durante a Guerra
Hispano-Americana. A maior parte dos detentos que estão na prisão hoje sequer
foi julgada, mais ou menos como o que acontece no livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka. O conto, de 1914, mostra uma
história parecida com o que já vimos nos noticiários do mundo inteiro em
relação à prisão americana em território cubano, nos anos 2000.
A “guantanamera” carcerária, alugada aos Estados Unidos em 1903 – pelo
custo de cinco mil dólares anuais, pagos até hoje, num acordo sem prazo
determinado, estabelecido pelo então presidente Theodore Roosevelt – segue uma
linha explicada por Kafka no livro, com a demonstração do poderio da máquina,
sem se importar se é o correto ou não. Mais ou menos como o que aconteceu com a
humanidade nos últimos séculos. O senso de respeito para com o ser humano (se é
que ainda existe) é totalmente ignorado tanto pelos personagens do conto, como
pelos governantes americanos.
Outro aspecto importante e
curioso é que, no livro ou “realidade”, todos os presentes observam uma cena
repugnante e sem a mínima coerência com nada, e continuam de braços cruzados,
apenas pensando em como isso é errado ou como poderia ser aplicado em
instituições próximas, ou apenas no dia a dia. E assim como no conto, sabemos
que isso sempre está à espreita, esperando para eclodir em qualquer parte do
globo. É uma pena que isso não morra nunca.
E tem mais um ponto a ser
levantado: até onde podemos observar impassíveis os atos grotescos de outras
instituições (não importando se são países, colônias penais ou de férias) sem
interferir? Não por motivos políticos ou econômicos, mas pelo simples e vital senso?
Talvez foi isso que Kafka quis nos mostrar em seu conto, já que descreve com
maestria a máquina – uma metáfora do Estado? - e a fascinação que ela pode
exercer nas mentes mais fracas. Acho que Kafka concordaria que não dá mais para
ficar de braços cruzados esperando que alguém faça algo a respeito.
Por mais que o texto de
Kafka tenha 90 anos, ou a prisão seja centenária, os dois apenas seguiram – no
caso do escritor alemão, é uma história “fictícia” - os caminhos que a
humanidade traçou ao longo dos anos. A capacidade da barbárie, no comportamento
humano, nos leva a ter diversos pontos de vista no que se diz respeito a leis,
estatutos e comportamentos. Ter liberdade não significa poder fazer o que bem
entender. A máquina do Estado não pode ser capaz disso. Talvez Kafka não
tivesse conhecimento de Guantánamo, mas a descreveu muito bem, apenas obervando
o comportamento humano.
*resenha do Livro Na Colônia Penal, de Franz Kafka.