André Silva, morador da favela de Vila Prudente, conta um pouco do que vivencia no seu dia- a- dia, trabalhando com moradores de outras favelas em busca de melhores condições de vida
“Não é chamando favela de comunidade que vamos mudar a realidade”, diz, com certa ênfase revolucionária, André Silva. Aos 33 anos, o estudante de direito, morador da favela de Vila Prudente (como ele mesmo frisa, com orgulho), casado e pai de um garoto de 13 anos, tem bagagem para falar do assunto.
Vestindo uma camisa branca, estampada com Che Guevara no peito, ostentando a frase “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás!”, já dá pistas de que, como o velho guerrilheiro, prefere morrer de pé do que viver de joelhos nesse mundo. Mundo esse que não conhece o habitat do grande corintiano André, a favela (ou comunidade, se você ainda não estiver totalmente integrado ao lugar).
Apenas para ilustrar o caminho pelo qual vamos adentrar, o Movimento de Defesa do Favelado (MDF) está, desde os anos 70, lutando com os favelados por saneamento básico. As primeiras conquistas foram uma creche e uma rede de esgotos, construídas na favela de Vila Prudente. Sir Alex Ferguson, técnico do poderoso Manchester United, do futebol inglês, já contribuiu com doações para a entidade. Ele conheceu o MDF por meio de um olheiro do time, que é irmão de um dos fundadores do movimento.
Há seis anos no MDF, André conta, em meio a uma chuva insistente, que teimava em riscar o céu cinzento daquela manhã de sábado, como foi “tentado” a trabalhar com esse projeto: “Eu trabalhava em uma empresa normal, iniciativa privada. E, na favela de Vila Prudente, onde moro, realizava um serviço voluntário, na igreja católica, com jovens. E o padre responsável pela comunidade, o irlandês Patrick Clarke, um dos fundadores do MDF, me convidou, dizendo que ia iniciar um novo projeto, e a idéia era trabalhar com formação e organização dos jovens da favela. E achamos que você tem o perfil certo”.
Em seguida, André foi convidado a participar do 3° Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, no ano de 2003. “Fui para o Fórum, e achei muito interessante. A partir dai, decidi trabalhar no projeto. Larguei a empresa, tinha acabado de ser promovido, mas o lado do ideal falou mais alto”, revela André, que hoje trabalha fazendo a articulação do MDF com outros movimentos de moradia, ajudando no dialogo com prefeituras, governo federal e estadual para melhorias e infra-estrutura
Empolgando-se visivelmente enquanto fala do MDF e seus projetos, André ainda fala, de modo quase eufórico, porém sempre educado, de como o novo trabalho lhe deu a oportunidade de aprender e conhecer um pouco do Brasil e do mundo. Inúmeras idas a Brasília, noites ao relento em atos pró moradia na Praça da Sé, e noites deitado apenas em um lençol, no chão de uma escola em Belém do Pará, mostram um pouco do sacrifício enfrentado para pleitear uma pequena fagulha de esperança em vidas sofridas, desgastadas.
Um de seus primeiros trabalhos, em 2005, foi levar cerca de dez jovens para a Jornada Mundial da Juventude, realizada na cidade de Colônia, Alemanha. “Foi uma grande experiência, gratificante. Levar jovens que jamais entraram em um aeroporto para uma viagem internacional, com o intuito de fazer melhorias para os seus vizinhos, foi muito bom, acabei aprendendo bastante com eles”.
Além de conhecer a África do Sul e a Tanzânia, também conheceu Kibera, a maior favela da África, situada em Nairóbi, capital do Quênia, e uma das maiores do mundo. Em um emaranhado de córregos, vielas de terra batida, quase como uma espécie de sistema circulatório doente, esquecido por Deus e pelo mundo, Kibera abriga cerca de um milhão de pessoas em seus becos e barracos. “As pessoas que tem energia elétrica lá, são privilegiadas. Não há banheiro dentro das casas, só existem banheiros coletivos, é uma situação muito precária”, relata André, ressaltando a total falta de condição para a proliferação da vida humana no local. A viagem também ficou marcada pelo clima tenso, devido à eleições entre candidatos de duas etnias (núbios e luos, duas das principais tribos do Quênia), o que acabou gerando um massacre com centenas de mortos e milhares de refugiados.”O que assustou foi ver muita gente armada, e o cenário de muita pobreza’, diz.
Essa descrição de Kibera pode mostrar um cenário já visto antes aqui na cidade de São Paulo, que possui entre 1800 a 2000 favelas, com cerca de um milhão de habitantes. Mas todas as favelas tem sua própria história, sua relação com a cidade. A favela de Vila Prudente, que nasceu entre as décadas de 40 e 50, era composta basicamente de migrantes nordestinos. “E na favela do Moinho, na Barra Funda, já existem peruanos e bolivianos morando por lá”, diz André, que coloca o Brasil, devido ao seu período de moderada aceleração da economia, como um novo EUA, alvo de peregrinação de almas um tanto quanto mexicanas, sedentas por uma nova condição de vida, talvez regada a geladeira nova e TV de plasma.
Um aspecto dos moradores de favelas por toda a cidade, coincide ser o mesmo: a baixa auto estima. “Como um favelado pode ajudar outro favelado? Tem que ser gente que entende das coisas, tem que ser doutor’, disse, certa vez, um morador, talvez extremamente necessitado de uma nova perspectiva de vida, que não seja a favela.
O resgate da auto-estima do povo favelado é um ponto delicado de se trabalhar, pois a população, com a sua pré-disposição em aceitar certos rótulos - como aquele em que se diz que na favela também tem gente de bem – torna-se uma tarefa muito complicada. “Muita gente fala se pergunta o porquê de tal família morar perto de um córrego, mas nem pensa que isso é uma problema social”, pondera André, expondo a falta de conhecimento que cerca a favela.
O “senhor favela” mais viajado da Vila Prudente, que cresceu jogando bola e correndo pelos becos estreitos, porém felizes pra uma criança, está quebrando algumas regras, como aquela que fala “pra que estudar, tem é que trabalhar!”, muito comum nos “barracos lares felizes”.
“Agora, me olham e falam: Se ele é favelado e faz faculdade, eu também posso!”, revela, com palpável orgulho na voz, e obviamente feliz, talvez com a sensação de estar cumprindo o seu dever para com a favela, sempre seu mundo, sempre seu coração.
“Se ainda tiver dúvidas do que vai encontrar quando for a uma favela, só posso fazer um convite, então venha conhecê-la!”, finaliza, mostrando todo o amor que tem pela favela, que poderia ser preto e branca, do jeito que ele mesmo gosta.
* Esse é um trabalho apresentado para a matéria Introdução ao Jornalismo, do curso da Fiam/Faam. Agradeço ao Prof° Claudio Tognolli, pelas dicas, e ao André, parceiro de longa data e um motivo de orgulho. Não só para mim.
André Silva trabalhando no escritório do MDF